Unifesp aponta que 70% dos doadores de sangue, que estão infectados pela hepatite C, podem ter lesão no fígado

Um número relativamente significante de doadores de sangue da Grande São Paulo, que se julgam sadios, está contaminado com o vírus e apresenta alterações bioquímicas importantes que podem indicar que o fígado já apresenta algum comprometimento. A conclusão partiu de um estudo que testou a eficácia da análise dos níveis de ácido hialurônico no soro dos doadores de sangue detectados com o vírus da hepatite C como possível método diagnóstico primário e não invasivo, que indique o grau de desenvolvimento da doença.

A avaliação de um método diagnóstico não invasivo para detecção primária de lesão do fígado em portadores do vírus da hepatite C (VHC) e apresentada como dissertação de mestrado na Unifesp traz duas notícias: uma boa e uma ruim. A notícia boa é que um simples exame de sangue pode ajudar a detectar, primariamente, se portadores da Hepatite C já apresentam algum comprometimento do fígado e em que grau se encontra, sem a necessidade de passar, imediatamente, por uma biópsia – procedimento cirúrgico no qual se colhe uma amostra de tecido do órgão para avaliar a evolução da doença.

De acordo com os resultados do estudo, o aumento dos níveis de ácido hialurônico (AH) no sangue de portadores está relacionado com lesão hepática. “A descoberta de métodos diagnósticos não invasivos é de extrema importância, pois, além de minimizar os riscos para o paciente, também diminui os custos para a saúde”, explica a bióloga Itatiana Rodart, autora da pesquisa.

O AH é uma substância presente, em diferentes proporções, em todos os órgãos do nosso organismo e preenche os espaços entre as células. É responsável pelo volume da pele, forma dos olhos e lubrificação das articulações. A mensuração dos níveis desse elemento no sangue junto com demais informações também ajuda no diagnóstico de doenças como oftalmopatia associada à Doença de Graves, neoplasias, processos inflamatórios e doenças virais.

Descoberta tardia

Muitas pessoas sequer imaginam serem portadoras da Hepatite C e, quando descobrem, muitas vezes o fígado já apresenta comprometimento. É aí que entra a má notícia do estudo e que serve como alerta para a população.

A pesquisa avaliou amostras de sangue de 50.607 doadores da Grande São Paulo e verificou que das 169 (0,33%) com anti-VHC positivos, 99 (58.57%), foram detectadas como portadores da doença. Destes, cerca de 70% já estavam com alterações no fígado, apesar de não apresentarem sintomas clínicos da doença. “Por não apresentarem qualquer sinal clínico ou ultra-sonográfico de hepatite crônica, esses indivíduos consideram-se aptos a doar”, afirma a pesquisadora.

Na faixa etária de 40 a 49 anos houve maior prevalência do vírus (32,3%), sendo menor entre 60 e 65 anos (3%). O sexo masculino foi o que apresentou maior número de casos (77,78%). “Essa faixa etária atinge a população que sofreu transfusão de sangue ou cirurgias antes de 1989, antes da descoberta do vírus, e os testes sorológicos de ELISA foram implantados em 1992”, explica a bióloga.

Subtipo agressivo

O estudo também aponta que o subtipo de vírus da Hepatite C mais prevalente entre os portadores analisados é o tipo 1 (82,8%). De acordo com Itatiana, há seis tipos de vírus da Hepatite C pelo mundo e que demandam tratamentos diferentes. No Brasil, os tipos 1, 3 e 2 são, nessa ordem, os mais prevalentes, sendo que o tipo 1 é considerado o mais agressivo e requer tratamento mais prolongado. Já os tipos 2 e 3 respondem melhor ao tratamento e o tempo de medicação é reduzido pela metade (seis meses).

Para Itatiana, as informações que chegam às pessoas sobre a Hepatite C ainda são insuficientes e o compartilhamento de agulhas entre usuários de drogas ainda é o principal meio de transmissão atualmente, seguido pelo contágio em manicures e tatuagens. “Diferente da transmissão sexual do HIV e do vírus da Hepatite B, que já esta comprovada, a transmissão do VHC por essa via ainda é controverso”, explica.

Doença silenciosa

A infecção pelo vírus da Hepatite C (VHC) já é considerada um problema de saúde pública em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 170 milhões de pessoas em todo o mundo são portadoras de hepatite C crônica, com aproximadamente 4 milhões de novos casos de infecção descobertos por ano. O Ministério da Saúde estima que no Brasil cerca de 3 milhões de pessoas sejam portadoras do VHC.

Apesar da possibilidade de cura, a doença é uma das principais causas das complicações hepáticas e transplantes de fígado, uma vez que cerca de 70% a 85% dos casos de contaminação evoluem para doença crônica.

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